quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Noite

Você parece bem pior que eu.
Depois de uma noitada, dois, três, quatro, e eu perco a conta de quanto já foi. Mas acho engraçado o modo como nós dois cambaleamos pela calçada e tentamos insistentemente nos apoiar no cimento e no tijolo que ladeia a rua. Acho mais engraçado ainda quando seus olhos te traem e seu corpo despenca direto no chão. Normalmente isso não seria engraçado, mas depois de uma noitada e de dois, três, quatro, só Deus sabe quanto já foi, isso soa hilário.
Então entramos no 334, e mais uma vez eu rio escancaradamente (exibindo todos os dentes) da sua dificuldade em encaixar a chave na fechadura.
Você se senta no sofá, eu me deito no chão, e a gente deveria começar uma conversa, mas eu me levanto e grito porque eu sei que você não me ama mais e disparo uma série de afrontas e tropeço e engasgo e vomito as palavras sobre você e estamos tão confusos eu vejo seus olhos me fitando como se eu fosse uma louca mas eu não sou uma louca e você sabe que não mas as coisas estão indo de mal a pior e eu sei que você não me ama mais, seu verme desgraçado, como ousa, e eu pego uma garrafa de gim que jazia sobre a mesa e arremesso na sua direção - é uma pena que tenha acertado a parede, mas aquilo cheira a perfume e eu particularmente não gosto.
Então você se levanta e tenta me conter, mas eu grito e me debato e tropeço e engasgo e nós estamos tão loucos e eu vejo seus olhos me fitando como se eu fosse uma louca mas eu não sou uma louca e você sabe que não mas as coisas estão indo de mal a pior e eu sei que você não me ama mais, seu verme desgraçado, como ousa?, ponha-se daqui pra fora! Fora!