Você parece bem pior que eu.
Depois de uma noitada, dois, três, quatro, e eu perco a conta de quanto já foi. Mas acho engraçado o modo como nós dois cambaleamos pela calçada e tentamos insistentemente nos apoiar no cimento e no tijolo que ladeia a rua. Acho mais engraçado ainda quando seus olhos te traem e seu corpo despenca direto no chão. Normalmente isso não seria engraçado, mas depois de uma noitada e de dois, três, quatro, só Deus sabe quanto já foi, isso soa hilário.
Então entramos no 334, e mais uma vez eu rio escancaradamente (exibindo todos os dentes) da sua dificuldade em encaixar a chave na fechadura.
Você se senta no sofá, eu me deito no chão, e a gente deveria começar uma conversa, mas eu me levanto e grito porque eu sei que você não me ama mais e disparo uma série de afrontas e tropeço e engasgo e vomito as palavras sobre você e estamos tão confusos eu vejo seus olhos me fitando como se eu fosse uma louca mas eu não sou uma louca e você sabe que não mas as coisas estão indo de mal a pior e eu sei que você não me ama mais, seu verme desgraçado, como ousa, e eu pego uma garrafa de gim que jazia sobre a mesa e arremesso na sua direção - é uma pena que tenha acertado a parede, mas aquilo cheira a perfume e eu particularmente não gosto.
Então você se levanta e tenta me conter, mas eu grito e me debato e tropeço e engasgo e nós estamos tão loucos e eu vejo seus olhos me fitando como se eu fosse uma louca mas eu não sou uma louca e você sabe que não mas as coisas estão indo de mal a pior e eu sei que você não me ama mais, seu verme desgraçado, como ousa?, ponha-se daqui pra fora! Fora!
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
domingo, 8 de agosto de 2010
Cantiga de lugar nenhum
O que foi que te fizeram, criança?
Laceraram-te a poesia e o coração
Ficaste frágil, indefeso
Abandonado ao relento
Onde é que dói, pequeno azarento?
Naufragaste em solidão e menosprezo
Sem eira nem beira, sem teto, nem chão
O que foi que te fizeram, criança?
Laceraram-te a poesia e o coração
Ficaste frágil, indefeso
Abandonado ao relento
Onde é que dói, pequeno azarento?
Naufragaste em solidão e menosprezo
Sem eira nem beira, sem teto, nem chão
O que foi que te fizeram, criança?
terça-feira, 8 de junho de 2010
Sinestesia
Me diz se é hora de partir, que eu gosto de rir, com o passo apressado, do teu constante desaviso.
Gosto de sentir as cócegas do teu sorriso, e de não lembrar dos ponteiros, da sombra do sol nem da areia se esvaindo. Gosto só de me (des)preocupar com o vento e as nuvens. Quero ver a tempestade, outrora nuvem mansa, que chega rápido e vai embora.
Gosto de te engolir o corpo inteiro, a carne e a alma, sem fazer rodeios. Quero mergulhar no teu azul imenso, no vermelho intenso e no amarelo que me convida para entrar.
Mas me diz logo se é hora de partir, que eu gosto de ver, com o riso abafado, o teu passo desajeitado...
(Obrigada, Izinha)
sábado, 20 de março de 2010
Apelo
Que se sucede, menina?
Não me deixe aqui, não.
Você sabe, a tempestade cessa. O silêncio logo vem.
Apenas feche os olhos e se deixe levar pela canção.
Te amo tanto, pequenina...
quinta-feira, 18 de março de 2010
Desabrigo
E então ela se foi.
Largou o livro pela metade, a panela no fogo, a roupa do avesso.
Não fechou as janelas, não escovou os dentes, não penteou os cabelos e não teve tempo de escolher a roupa.
Deixou um romance interminado, uma ideia inacabada e uma melodia abandonada.
E então ela se foi.
Não deixou bilhete, nem satisfação.
Sem pedir licença nem aceitação.
Apenas foi.
E não vai mais voltar.
Largou o livro pela metade, a panela no fogo, a roupa do avesso.
Não fechou as janelas, não escovou os dentes, não penteou os cabelos e não teve tempo de escolher a roupa.
Deixou um romance interminado, uma ideia inacabada e uma melodia abandonada.
E então ela se foi.
Não deixou bilhete, nem satisfação.
Sem pedir licença nem aceitação.
Apenas foi.
E não vai mais voltar.
A esmo
Estou vivendo a esmo.
Estou andando sem rumo.
Estou num desarrumo só.
Além do mais, eu ando meio achacado, meu bem. Acordei sem cachorro, sem gato, sem novela, sem novelo, sem sol, sem estrela, sem colcha, desnudo, carrancudo. Contudo, prazenteiro - ao fundo, reconheço seu grito alvissareiro. Infinito. Reconheceria-o a dez mil milhas de distância. E não me acorde se for só sonho bom.
Mas qual era o meu problema, mesmo?
quarta-feira, 17 de março de 2010
Preâmbulo
E quem dirá que não posso invadi-la, com audácia e galhardia?
Veja só, não é de bom grado que recuse minha visita.
Não tenha medo, serei gentil e obsequioso.
Aproveitarei cada pulso elétrico que possa correr dentro de ti.
Não se preocupe, não sugiro nenhuma aleivosia.
Mas eu a penetrarei. E acharei graça do assombro alheio.
Sorverei até a última gota de vida que ousar passar pelas suas veias.
Se me permitires, lacerarei cada sonho e cada plano que divisar.
Sopearei cada um deles, cada mínimo pedaço que atrever-se a se esgueirar.
E então, quando finalmente estiver fatigada, conchegarei-a num abraço (e)terno e profundo, e cuidarei que seus olhos calmos de maresia repousem junto à minha respiração densa de tempestade em veraneio.
Assinar:
Comentários (Atom)